Happy Birthday

Faz hoje dois anos que, de coração pesado, me mudei de armas e bagagens de Londres.

Ainda hoje acredito que quando nos mudamos de vez para outro país não temos consciência do que estamos a fazer até acordamos no dia seguinte num sítio que nos é tão estranho. A leveza do dia em que deixei Portugal ainda hoje me faz duvidar da minha sanidade mental naquele dia. Sinceramente acredito que estava em estado de choque. Sempre fui uma pessoa muito apegada às minhas coisas, às minhas pessoas. E aquilo que vinha a ser um plano calmamente construído ao longo de alguns meses começou a ganhar traços definitivos: as aceitações das universidades, os exames da língua, enfim. Tudo aquilo que poderia constituir uma barreira à minha mudança foi-se concretizando. Mas ainda assim, e com uma viagem marcada neste mesmo dia há dois anos, tive um dia como qualquer outro. Mergulhada na minha rotina, almocei com a minha mãe, fiz as minhas malas em pouquíssimo tempo – só isto demonstra que não estava bem, eu demoro HORAS a fazer malas – e ainda consegui tomar um café com a D., que mais incrédula do que eu constatava aquilo que eu ainda não tinha percebido. Acabaram-se os cafézinhos fugazes. As idas às lojas no meio de uma tarde de marasmo. As horas a fio passadas a falar no carro estacionadas à porta das nossas casas. Não percebi isso até ela me deixar no carro em lágrimas. Mais tarde os meus pais levaram-me ao aeroporto sombrios. Mal falavam. Pelo contrário, eu falava bastante. Até demais, agora que penso. Mas essa leveza, esse bem estar acabou-se no momento em que fiz o check in. Em que percebi que aquele abraço que ía dar aos meus pais não era um abraço como os que dava quando chegava a casa depois de um dia intenso. Foi o último abraço à vida que nós tínhamos. A vida por vezes muda a uma velocidade surpreende quando menos esperamos, e aquilo que tomamos por garantido deixa de o ser.  A viagem de avião foi terrível. Não conseguia ler, consumida numa tristeza que me consumia a alma e me fazia doer o coração intensamente. Não conseguia falar, o nó na garganta e as lágrimas ameaçavam uma tempestade caso conseguisse tremer uma palavra que fosse. Foram duas longas horas de voo. Á chegada tinha a grande razão da minha mudança à minha espera. Não consegui falar com ele até chegarmos a casa o que, com o atraso do meu voo, implicou muitas alterações à nossa viagem. Ele falava dos parques fantásticos que tínhamos ao pé de casa e como tinha descoberto um restaurante italiano que sabia que eu ia adorar. Descrevia o dia seguinte, que me ia mostrar Londres como eu nunca tinha visto pelos olhos de alguém que já cá tinha morado. Na minha cabeça pensava na vida que tinha deixado para trás. Na minha família. Nos meus amigos. Na D. Era muita dor e confusão para o meu coração nesse dia. Muitos “e se eu…”. No momento em que cheguei ao quarto onde vivi durante oito meses chorei. Chorei pelas saudades que sabia que ia sentir, pela dor de mudar e por ter consciência que Londres não ia ser um amor passageiro. Naquele dia Londres tornou-se na minha casa.

Neste dia há dois anos, acabaram-se toda uma série de coisas que tornavam a minha vida no Porto um sítio (quase que) perfeito. Nesse dia acabou-se toda uma rotina com a D. que, hoje em dia, instauramos novamente no momento em que aterro no Porto. Não existe necessidade de perguntar, é senso comum: a amizade é assim mesmo. Podem-se passar meses mas voltamos aos momentos que nos fizeram felizes sempre que eu regresso. E a verdade é que a felicidade está intrinsecamente ligada ao amor às pessoas que nos fazem feliz. Quando vou ao Porto torno-me devota às pessoas que me fazem feliz. Passei a dar valor às saudades e tentar compensar pelas minhas ausências sempre que volto, saber que tenho um tempo limitado com as pessoas que amo e aproveito-o ao máximo. Os abraços nos aeroportos ganharam um novo significado e tornei-me turista quando retomo à minha cidade de sempre, fascinada com um Porto tão único, tão especial. É a forma de recarregar baterias antes de voltar a Londres.

Londres é uma cidade sem comparação. Cosmopolita, é uma cidade que à semelhança de NY, não dorme. Há sempre alguma coisa para se fazer, alguma exposição temporária que vai durar apenas dois dias, o concerto pelo qual sonhávamos poder ir que finalmente tem data, um restaurante novo para nos perdermos no paladar de uma nova cozinha, uma fuga no fim de semana à Escócia ou a França de comboio, os parques infindáveis para ir fazer um piquenique quando os céus decidem dar tréguas da chuva…e para uma mulher, isto é sem dúvida um paraíso. Não faltam lojas para nos perdermos durante horas na medida do que os respectivos namorados tolerarem. Mas acima de tudo tem vida. Não pára, não paramos. Há sempre um desvio para fazer no metro, uma saída antecipada para trocar para o autocarro e tentar ir nas cadeiras da frente do primeiro andar do double decker ou até mesmo para ir comprar um guarda chuva de 5 £ porque nos esquecemos da regra basilar de quem vive em Inglaterra: nunca andar sem um guarda chuva. Londres é uma vida àparte. Intensa.

Mas a verdade é que tenho umas saudades imensas do Porto e da felicidade que me traz. Sou feliz em Londres, mas sei que só vou ser verdadeiramente feliz no dia em que voltar à cidade que tem o mar e o rio tão perto um do outro.

M.

 

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